segunda-feira, 28 de maio de 2012

A BÍBLIA COMO CAMPO DE BATALHA RELIGIOSA


Desde que a tradição judaico-cristã legou à Bíblia a autoridade normativa, esta se tornou mais que um instrumento de reflexão teológica e inspiração religiosa, se tornou um verdadeiro campo de batalha entre diferentes grupos religiosos. Como texto sagrado adotado por diversas formas de culto, a interpretação da Bíblia passou a servir a objetivos apologéticos; cada grupo procurava legitimar suas próprias práticas e dogmas através do texto bíblico, o que produziu inumeráveis leituras contraditórias.
Os judeus já produziam antes de Jesus e do completo fechamento do cânon do Antigo Testamento, suas exegeses de caráter pragmático e alegórico, e o próprio Novo Testamento atesta essa afirmação. Em algumas narrativas Jesus aparece discutindo com outros judeus (geralmente fariseus e escribas) sobre a verdadeira interpretação da Lei, e o apóstolo Paulo também fazia uso abundante de tradições literárias para legitimar suas posições. No Evangelho de Mateus temos alguns bons exemplos: primeiro no capítulo 5.17-48, onde o autor usa Jesus para oferecer sua própria leitura de alguns conhecidos mandamentos, alguns fixados na tradição literária, outros talvez ainda divulgados oralmente (sobre homicídio, adultério, divórcio, juramentos e sobre a retribuição do mal recebido), e constrói sua “lei” em oposição direta à dos seus rivais, os fariseus, que deveriam ser superados (Mt 5.20). Apesar de criar novas maneiras de seguir tais “obras de justiça”, o evangelho faz questão de afirmar que Jesus não queria abolir a Lei, mas cumpri-la (Mt 5.17), criando um paradoxo que se explica pela necessidade de fazer os textos, cuja autoridade já era indiscutível naquela cultura, confirmar sua religiosidade a todo custo.
O apóstolo Paulo se envolveu em questão similar. Ele transformou o “evangelho de Jesus Cristo” numa forma de religião praticável não somente entre judeus, mas também para gentios, e sofreu com a oposição de judeus ortodoxos que exigiam que os tais gentios seguidores de Jesus fossem “judaizados”, isto é, que se circuncidassem, que passassem a seguir seus rituais de pureza, suas restrições alimentares etc. Paulo negava a necessidade de tais ações, e embora estivesse claramente descartando boa parte da tradição judaica e do Antigo Testamento, não podia admiti-lo. Numa de suas cartas ele tenta conciliar a tradição legal de Israel (a Toráh) com a liberdade e igualdade que apregoava. Em Gálatas, capítulo 3, ele usa as narrativas bíblicas sobre Abraão para demonstrar que antes de Moisés e da Lei, já existia uma promessa divina de que todos os que cressem seriam “justificados” e se encontrariam entre os eleitos “filhos de Abraão” (Gn 15.6; Gl 3.6-7); para Paulo, a própria tradição legal confirmava sua doutrina da salvação pela fé, o que inevitavelmente negava a prática da Lei e a escolha de Israel como nação especial.
Não pensemos, todavia, que as coisas mudaram. Ainda existem diferentes formas de culto que buscam assegurar sua legitimidade por meio de textos bíblicos. Diferentes denominações evangélicas se acusam diariamente através da citação de passagens bíblicas, o que é um resustado direto da antiga luta dos reformadores protestantes para transformar a Bíblica na grande fonte de autoridade normativa.
Até o espiritismo kardecista, nascido na França em meados do século XIX, julgou necessário incluir Jesus, o nome mais à tradição cristã ocidental, dentre suas doutrinas. Se não o fizesse, o kardecismo sofreria a resistência da cultura europeia ao ser rotulada como seita anticristã. Como nos exemplos bíblicos vistos acima, a apropriação de Jesus e de outras tradições bíblicas pela doutrina kardecista revela muitas contradições e equívocos, mas cumpre seu papel ao acalmar ex-cristãos que anseiam por saber onde fica Jesus em meio à nova religiosidade.

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